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Edição Limitada

“Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Clarice Lispector

Edição Limitada

“Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Clarice Lispector

Mudanças ou os Ventos de Santa Ana

No filme “The Holiday” há uma cena muito simples mas com imenso significado. Para mim, pelo menos. Fala dos ventos de Santa Ana. Para quem não viu o filme, trata de duas mulheres que decidiram dar uma volta nas suas vidas, numa espécie de fuga prá frente, e por isso, num impulso, inscrevem-se num site de troca de casas. Uma em Inglaterra, outra nos Estados Unidos. Na Califórnia mais precisamente.

Voltando à cena: uma delas está em frente da sua “nova” casa com um dos personagens e sopram ventos fortes. E ele diz-lhe: “The wind...It's what makes it so warm at this time of the year. Legend has it, when Santa Anas blow, all bets are off, anything can happen.”

Nas duas últimas semanas estes ventos devem ter andado a soprar por estes lados. Em imensas pequenas coisas senti que era altura de mudanças. E quando são vários os sinais… uma pessoa deve fazer por segui-los, não é?

Tudo começou com uma saudade de tempos bons. Tempos em que recebíamos amigos em casa para jantares animados, com partilha de alimentos e experiências. Depois foi a oportunidade de me desfazer de dois telemóveis antigos, daqueles que estão ali na gaveta porque não sabemos o que lhes fazer. Com a mudança de telefone… veio também toda uma nova oportunidade: novas conversas. Sem histórico. A minha resistência à mudança manifesta-se neste tipo de coisas… mudar de telemóvel implica ganhar umas coisas e perder outras. Desta vez decidi que ia ver esta “chatice” como uma oportunidade para o novo. Novas conversas, filtrar o que importa e alimentar o que nos faz bem.

Também senti o ímpeto de fazer algumas alterações em casa. Deixar de adiar esta ou aquela tarefa. Dar prioridade aquilo que embora considere prioritário, é muitas vezes adiado. E senti vontade de sair para caminhar, até nos dias em que não precisava de o fazer para me deslocar do ponto A ao ponto B. E com estas “vontades” consegui superar-me mais uma vez. E essa sensação é sempre boa!

As mudanças trazem normalmente algumas dores… nem que sejam musculares! Implicam desfazer nós, desfazermo-nos de coisas/situações com as quais já estamos confortáveis, mesmo que saibamos que já não fazem parte do que somos ou do que queremos ser. Mas é mais fácil, ou parece muito mais fácil, manter do que mudar.

Mas ao mesmo tempo, as mudanças também trazem leveza, ar fresco, oportunidades de melhoria e renovação. De fazer um upgrade à nossa própria versão. Mesmo que sejam ligeiras atualizações… são sempre atualizações!

E por isso não se esqueçam, se sentirem um ventinho passar, aquela brisa quentinha na cara, pensem nos Ventos de Santa Ana e deixem-se voar. Está tudo em jogo, e tudo pode acontecer!

 

P.S.: No Domingo à noite, num fim de semana em que me empenhei nesta coisa da mudança e por isso estava feliz mas exausta… decidi ultrapassar o cansaço e fui “correminhar” como diz uma das minhas amigas. Ia apenas caminhar, mas apeteceu-me correr um bocadinho e acelerei o passo. Fui a ouvir o “Era o que faltava” com o Rodrigo Leão, que recomendo. Quando estava quase a chegar a casa ouvi uma das músicas dele que mais gosto, que me deixa bem disposta e que até já foi o meu serviço despertar (se calhar vai voltar a ser). Espero que anime também o vosso dia!

 

 

Uma carta de cada vez

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É conhecido o meu gosto pelas cartas e postais. Gosto de as escrever e adoro o momento em que abro a caixa do correio e um pedaço de papel me surpreende. Para mim é magia! Um destes dias recebi numa newsletter uma sugestão de um novo podcast. A Arianna Huffington sugeria uma meditação através de histórias. Alguém conta uma história, ou melhor, uma parte da sua história e ao longo da mesma somos levados a meditar sobre alguns temas da nossa própria vida.

Claro que quando há no meio de uma série de episódios um que se chama “One envelope at a time”, qual é que acham que eu ouvi?!

A história partilhada está carregada de momentos dolorosos. Mas por outro lado, fala do poder que uma carta pode ter. Do poder que escrever uma carta à mão pode ter. Para quem a recebe e para quem a escreve. Do poder que uma carta tem na criação e fortalecimento de laços.

All these technological rhythms are embedded in my day and yet what do they prove? They're not tangible. I can’t hold the texts I send close to my chest and trace them for a scent. The digital footprint, as mammoth as it may be, isn’t proof that you and I were here. That we lived. That we loved. That we danced in the kitchen to no music at all, or that we held someone’s hand or made them a cup of herbal tea when their world came crashing down around them. - diz Hannah Brencher na sua história.

Na Flow deste mês falam de uma escritora de viagens que tem por hábito escrever-se cartas ou emails enquanto anda a viajar. Tenho um hábito semelhante, envio-me sempre um postal. E também com esse, que eu sei que vai chegar, consigo sentir a magia no momento de abrir a caixa do correio. Não sei porque a Kassondra Cloos o faz, na verdade… também não sei muito bem explicar o porquê de eu o fazer… mas recomendo!

Ontem, enquanto aproveitava uns momentos entre o rebuliço da cidade sentada na mesa de um café, reparei num senhor que se sentou ao meu lado com um chá, um caderno, o mais normal possível, e uma caneta. Eu também tinha um caderno pequeno e uma caneta, o mais normal possível. Escreveu a data no topo da folha, por extenso, e continuou a escrever. Certamente que escrevia uma carta a si mesmo. Que será um diário mais do que um conjunto de cartas que nunca nos enviamos pelo correio? Olhei para ele e pensei “este senhor serei eu nos próximos dias”.

 

P.S.: Amanhã mostro-vos aqui a história de uma outra carta, numa história contada por uma outra pessoa. Uma história gira que me contaram e que quero partilhar!

 

Os meus vizinhos

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Cada um terá a sua forma de aprendizagem e fontes de conhecimento, mas muitos teremos tido a sorte de aprender muito do que sabemos com os nossos vizinhos. Eu sou uma dessas sortudas!

 

Cresci numa rua que tinha tudo! Tinha sobretudo um passeio enorme que acompanhava 5 prédios no comprimento e quase que o equivalente à sua sombra na largura. Era um mundo! A minha rua era, sem dúvida, muito melhor que a vossa. Tenho a certeza!

 

Éramos aquilo a que hoje alguns chamariam um gang. Íamos juntos para a escola, apesar de sermos de idades diferentes. Também sabíamos que se algum tivesse um problema, haveria de certeza um vizinho para ajudar.

 

Era no Verão que mais convivíamos, o que é natural. Férias grandes, dias longos… era caso para dizer que andávamos na rua de manhã à noite. No meu prédio tínhamos um código: o primeiro a estar despachado do almoço ou do jantar, assobiava nas escadas e assim os outros sabiam que já podiam sair. Encontrávamo-nos no prédio da Anita. O prédio da Anita era o do meio e tinha dois degraus. Ponto de encontro perfeito. Sentávamo-nos lá e passávamos horas à conversa, qual comadres. Também era na porta ao lado dessas escadas que ficava a peixaria de onde muitas vezes vinham os gelados à noite. O Senhor da peixaria era o máximo! O oposto da sua mulher. Quem também era nosso amigo era o Senhor Silva que tinha um restaurante no meu prédio e o armazém no prédio oposto. Sempre que o Senhor Silva ia ao armazém lá íamos nós ajudar na esperança de uma pastilha no final do trabalho feito.

 

Mas fazíamos muito mais que isto. Jogávamos às escondidas, ao berlinde e às caricas. Horas a fio de Monopólio que deixavam o Tó louco (quando perdia), fazíamos casas de Barbie e suas amigas (quase nenhuma delas Barbie) entre os patamares do prédio da Anita (eu, ela e a Rita) e com isso deixávamos louca a Dona Graciosa que detestava ter o estaminé montado nas escadas, o dia inteiro, todos os Santos dias das férias grandes. Outro vizinho que ficava louco era o pai do João. Tinha o azar de ter a casa dele mesmo por cima da melhor parede para fazer a baliza. E dois canos, mesmo ao lado dessa parede, eram o local onde contávamos quando jogávamos às escondidas e fazíamos aquilo a que hoje se chamaria bulling… O Gonçalo era sempre, ou quase sempre, o último a contar. E nós íamos esconder-nos. Em casa… Gonçalo, se estiveres a ler isto… desculpa!

 

Aprendi a andar de bicicleta agarrada às paredes dos prédios, numa bicicleta vermelha da Betinha. Quando apareceram, os vidrões, claro que houve um na minha rua! Passámos horas a tentar subir para cima dele. Era enorme! Assim como as nossas campainhas eram altíssimas. Eram tão altas que tínhamos de nos empoleirar no lancil da porta para lhes tocar. Jogávamos futebol humano e aos polícias e ladrões. E foi com os meus vizinhos que comecei a sair à noite. Tínhamos autorização para ir à Praça e estar na rua às 22h. Antes dessa idade não tínhamos hora, os pais iam à janela e começavam a chamar, um a um.

 

Éramos muitos, muito diferentes e ao mesmo tempo todos iguais. Aprendemos muito na Escola, nos livros, com a família, mas há coisas que só aprendemos com os amigos. E quando eles são nossos vizinhos, aprendemos muito mais!

 

P.S.: faltam aqui muitos nomes, não me esqueci deles, só não deu para incluir todos.

 

 

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