Quem anda de transportes públicos recorrentemente sabe que a probabilidade de se cruzar com as mesmas pessoas, às mesmas horas, nas mesmas paragens, estações ou carruagens, é muito elevada.
Quem anda de transportes públicos recorrentemente também sabe que há dias em que mal nos conseguimos mexer, mal conseguimos tirar a mão do bolso e muito menos segurar um livro que nos faz viajar até outros destinos.
O ritmo dos dias, para quem anda ou não de transportes, faz com que as nossas viagens sejam sempre apressadas, com que raramente aproveitemos o tempo e o espaço que esses minutos nos proporcionam. Andamos apressados, fazemos sprints de um lado para o outro e rebentamos “a bolha” constantemente.
É nessa bolha que eu, que ando de transportes públicos recorrentemente, me cruzo com uma mesma pessoa, mais ou menos à mesma hora, sempre na mesma estação de metro, sempre no mesmo lugar.
É uma rapariga jovem, cabelo comprido, encaracolado, normalmente sentada “à chinesa”, livro nas mãos, sorriso na cara e sem tempo. Não a vejo com pressa de chegar a nenhum lado. Não a vejo com ar cansado de quem vai começar mais um dia. Não a vejo preocupada com absolutamente nada. Está ali a aproveitar a sua bolha e a fazer-me pensar que nunca devo deixar que rebentem a minha!
Um dia destes pensei em parar para lhe agradecer. Mas isso ia fazer com que fosse eu a quebrar aquele momento, e não o fiz. Por isso, aqui fica o meu agradecimento! Quem sabe ela não tem por hábito ler blogs e um dia este post lhe chega “às mãos”.
Curiosamente screvi este post ao som de uma música que tem nome de livro. Haverá coincidências?
No livro "Abraço" do José Luís Peixoto li um texto sobre uma cabine telefónica. Aqui fica o excerto de quando o Zé Luís, como lhe chamava a avó, era pequeno:
"Mesmo muitos anos depois de ter sido instalada, a cabine telefónica não tinha qualquer risco ou sujidade. Aquele era um lugar que todas as pessoas da terra estimavam, como poderiam estimar um relógio antigo, ou qualquer objecto precioso. Muitas vezes de manhã, ao passar pelo terreiro, vi mulheres que moravam perto da cabine telefónica a lavá-la. Utilizavam água, que despejavam e que escorria, suja, ao longo das regadeiras. Utilizavam líquido dos vidros, que esfregavam com folhas de jornal. Nas outras ruas da vila, era exactamente assim que acontecia também com os caixotes do lixo. As pessoas que moravam perto dividiam entre si os dias em que os lavavam com vassouras, com baldes cheios de água. Depois viravam-nos ao contrário para secarem".
Acho que é disto que temos falta, do sentimento de bem comum, de responsabilidade sobre as coisas que são de todos e não são de ninguém. Ainda há uns dias, em conversa indignada com os meus pais sobre um rapaz que deitou um papel para o chão, estando ao lado de um adulto que nada fez, comentava o meu pai que os seus alunos (crianças!) se virem um casaco no chão, deixam ficar. "Não é meu!" é a resposta. E ainda por cima são perfeitamente capazes de lhe passar por cima. Afinal, não é deles!
O problema literário deste ano estava a ser mesmo um problema… há tantos livros que eu quero ler e tão pouco tempo para isso… Depois queria levar poucos… 3-4 achava eu… não deu… vou levar 6!
A seleção deste ano acabou por ser feita tendo em conta dois critérios: livros sobre viagens e livros que não acabei. Por norma leio mais do que um livro ao mesmo tempo. Tenho uma característica enquanto leitora, que às vezes é um grande defeito: enquanto não acabo o livro, lembro-me da história. Isso faz com que quando volto a pegar nele consigo continuar do ponto onde parei. Curiosamente, há imensos livros que quando acabo… a história “desaparece” da minha memória e não fica registado… É uma coisa estranha…
Assim sendo, aqui está a lista dos premiados para este Verão:
Marco Polo – Viagens: quando era miúda davam uns desenhos animados sobre as viagens do Marco Polo. Eu detestava! Hoje, acho que chegou a altura de ler esses relatos. Comprei o livro na Feira do Livro, estava lá a olhar para mim quando eu ia a passar… agora vai comigo de férias!
Dalai Lama: a minha prima trouxe-me o livro de uma das suas viagens. É o contributo dela para eu riscar da minha lista o ponto “ler uma biografia”.
Auto-retrato do Escritor enquanto corredor de fundo (Haruki Murakami): Outro dos que está por terminar e que faz sentido terminar nestas férias. Já aprendi algumas coisas, com e sobre o Murakami, nas páginas que li. Este Verão é mesmo a altura certa para refletir em alguns aspetos sobre mim, através dos treinos e das corridas do Murakami.
E vocês vão dedicar-se à leitura no Verão? Que livros escolheram?
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