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Edição Limitada

“Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Clarice Lispector

Edição Limitada

“Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Clarice Lispector

9:12 Estação de Metro do Saldanha

Quem anda de transportes públicos recorrentemente sabe que a probabilidade de se cruzar com as mesmas pessoas, às mesmas horas, nas mesmas paragens, estações ou carruagens, é muito elevada.

Quem anda de transportes públicos recorrentemente também sabe que há dias em que mal nos conseguimos mexer, mal conseguimos tirar a mão do bolso e muito menos segurar um livro que nos faz viajar até outros destinos.

O ritmo dos dias, para quem anda ou não de transportes, faz com que as nossas viagens sejam sempre apressadas, com que raramente aproveitemos o tempo e o espaço que esses minutos nos proporcionam. Andamos apressados, fazemos sprints de um lado para o outro e rebentamos “a bolha” constantemente.

É nessa bolha que eu, que ando de transportes públicos recorrentemente, me cruzo com uma mesma pessoa, mais ou menos à mesma hora, sempre na mesma estação de metro, sempre no mesmo lugar.

É uma rapariga jovem, cabelo comprido, encaracolado, normalmente sentada “à chinesa”, livro nas mãos, sorriso na cara e sem tempo. Não a vejo com pressa de chegar a nenhum lado. Não a vejo com ar cansado de quem vai começar mais um dia. Não a vejo preocupada com absolutamente nada. Está ali a aproveitar a sua bolha e a fazer-me pensar que nunca devo deixar que rebentem a minha!

Um dia destes pensei em parar para lhe agradecer. Mas isso ia fazer com que fosse eu a quebrar aquele momento, e não o fiz. Por isso, aqui fica o meu agradecimento! Quem sabe ela não tem por hábito ler blogs e um dia este post lhe chega “às mãos”.

 

Curiosamente screvi este post ao som de uma música que tem nome de livro. Haverá coincidências?

 

 

"A volta do carteiro"

Queixoperra, 6120 Mação. Durante largos anos as ruas da minha aldeia não tiveram toponímia atribuída. Havia quem estranhasse, quem dizia não ser possível, quem se espantasse muito por não haver extravios. Não havia. O “Tonho Puto” sabia de cor os nomes de todos os moradores, famílias completas de avós, pais, filhos, primos. Muitos Cruz, Silva, Lourinho, Casola, Vicente, Pereira, cada carta entregue no seu lugar.

Mala de cabedal a tiracolo, farda ajustada à figura, motoreta para fazer o giro, pressa quanto baste para distribuir tanto correio, é favor não atrasar o carteiro. Responsável durante muitos anos pela volta da minha aldeia, o “Tonho Puto” não conhecia apenas cada manha da estrada, cada beco sem saída, cada curva apertada, dominava sobretudo a mais importante geografia local.

Todas as aldeias que conheço têm uma geografia muito particular, indiferente ao que diz a toponímia, a dos afetos. É uma geografia impossível de replicar, única e especial, partilhada entre os moradores e, muitas vezes, também com o carteiro. Mais do que o mapa do terreno, o carteiro conhece o jeito de cada um e nenhuma carta é devolvida, mesmo que seja enviada sem destinatário.

“Sr. Carteiro, por favor entregue esta carta à rapariga mais simpática da Queixoperra”. Foi isto que o Luís escreveu na missiva enviada a partir do Forte de Nossa Senhora da Graça, Elvas, em Novembro de 1972. Seguia assim e fosse o que Deus quisesse. Quis Deus e o carteiro que o envelope tivesse sido entregue na casa de Clementina Vitória, mãe de duas raparigas solteiras e efetivamente simpáticas.

As ruas de então são as dos nossos dias: a do Porto d’Horta, a do Casola, a das Lajes, a da Fonte da Bica, a do Lombão. São os nomes ancestrais que lhes deram os antepassados locais e que se optou por respeitar numa célebre reunião que juntou o povo no salão da coletividade da aldeia. Hoje todas as ruas têm nome e todas as casas têm número de porta mas nem sempre as cartas chegam ao destino.

Há poucos meses, enquanto a família aguardava o SMS que nos haveria de indicar o número da porta dos primos, as minhas filhas fizeram o relato das melhores coisas daquela viagem. Referiram os vestidos tradicionais, as ‘patatas bravas’, os mergulhos À NOITE na piscina do hotel, os GELADOS, o palácio do rei e da rainha, tudo enquanto eu me esforçava para adaptar o ditado à economia de espaço do postal. Estávamos nos ‘Correos’ e com exceção do número da porta, a morada estava completa.

Aguardámos mais um pouco. Voltámos a entrar na catedral da cidade andaluz. Saímos e demos uma nova volta ao quarteirão. Era o último dia da viagem e daí a pouco regressaríamos a Portugal. E se for assim? O SMS não chegou mas o postal seguiu viagem. Seja o que Deus quiser.

Quem abriu o envelope do Luís foi a Ausenda, uma das filhas da Clementina. Quis Deus ou o destino, certamente o carteiro, que uma carta os juntasse. Casaram em 1975, muita correspondência depois. Já o postal dos meus sobrinhos nunca chegou ao destino, perdeu-se algures entre Espanha e Portugal, num qualquer ponto da distribuição. Talvez eu esteja enganada mas tenho cá para mim que os carteiros de hoje não são como o saudoso “Tonho Puto”, o carteiro que elegeu a Ausenda como a rapariga mais simpática da minha aldeia.

 

Este texto foi escrito por Berta Silva Lopes e publicado em mediotejo.net onde podem descobrir outras histórias giras. 

 

Uma carta de cada vez

via

É conhecido o meu gosto pelas cartas e postais. Gosto de as escrever e adoro o momento em que abro a caixa do correio e um pedaço de papel me surpreende. Para mim é magia! Um destes dias recebi numa newsletter uma sugestão de um novo podcast. A Arianna Huffington sugeria uma meditação através de histórias. Alguém conta uma história, ou melhor, uma parte da sua história e ao longo da mesma somos levados a meditar sobre alguns temas da nossa própria vida.

Claro que quando há no meio de uma série de episódios um que se chama “One envelope at a time”, qual é que acham que eu ouvi?!

A história partilhada está carregada de momentos dolorosos. Mas por outro lado, fala do poder que uma carta pode ter. Do poder que escrever uma carta à mão pode ter. Para quem a recebe e para quem a escreve. Do poder que uma carta tem na criação e fortalecimento de laços.

All these technological rhythms are embedded in my day and yet what do they prove? They're not tangible. I can’t hold the texts I send close to my chest and trace them for a scent. The digital footprint, as mammoth as it may be, isn’t proof that you and I were here. That we lived. That we loved. That we danced in the kitchen to no music at all, or that we held someone’s hand or made them a cup of herbal tea when their world came crashing down around them. - diz Hannah Brencher na sua história.

Na Flow deste mês falam de uma escritora de viagens que tem por hábito escrever-se cartas ou emails enquanto anda a viajar. Tenho um hábito semelhante, envio-me sempre um postal. E também com esse, que eu sei que vai chegar, consigo sentir a magia no momento de abrir a caixa do correio. Não sei porque a Kassondra Cloos o faz, na verdade… também não sei muito bem explicar o porquê de eu o fazer… mas recomendo!

Ontem, enquanto aproveitava uns momentos entre o rebuliço da cidade sentada na mesa de um café, reparei num senhor que se sentou ao meu lado com um chá, um caderno, o mais normal possível, e uma caneta. Eu também tinha um caderno pequeno e uma caneta, o mais normal possível. Escreveu a data no topo da folha, por extenso, e continuou a escrever. Certamente que escrevia uma carta a si mesmo. Que será um diário mais do que um conjunto de cartas que nunca nos enviamos pelo correio? Olhei para ele e pensei “este senhor serei eu nos próximos dias”.

 

P.S.: Amanhã mostro-vos aqui a história de uma outra carta, numa história contada por uma outra pessoa. Uma história gira que me contaram e que quero partilhar!

 

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