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Edição Limitada

“Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Clarice Lispector

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“Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Clarice Lispector

A bolha!

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Já partilhei o conceito de bolha mas nunca é demais lembrar: a bolha é aquele lugar onde podemos estar e onde praticamente nada nos consegue atingir, afetar ou incomodar. É uma capa protetora, quase como o Manto da Invisibilidade do Harry Potter. Pois a minha bolha foi uma das melhores coisas que descobri!

Para descobrir a bolha temos de estar num determinado estado de espírito. Não, nem sempre é fácil de descobrir… ou melhor, às vezes estamos de tal maneira embrulhados no dia a dia que não conseguimos ver essa bolinha de sabão que, mesmo que frágil, podemos criar à nossa volta. Frágil, mas poderosa!

A minha bolha reapareceu depois de uns dias de imersão numa realidade totalmente diferente da minha, dias de distanciamento e crescimento. Dias de descanso! E essa bolinha de sabão ficou mais espessa e passou ao formato bolha!

A minha bolha permite-me passear pelas ruas em vez de correr pelas ruas, permite-me ver em vez de olhar, mostra-me o que muitas vezes me passava ao lado, ajuda-me a respirar fundo e relativizar. Resumidamente, a minha bolha faz-me mais feliz!

Há quem ainda não tenha encontrado a sua… Também há quem não conheça o conceito… E há, como sempre, aqueles que se sentem impelidos a rebentar as bolinhas de sabão em vez de observar a sua beleza. O que estes últimos não sabem é que quem tem uma bolha… pode sempre criar uma nova, mesmo quando insistem em rebentá-la. Quem descobre a sua bolha, descobre que tem poderes mágicos.

9:12 Estação de Metro do Saldanha

Quem anda de transportes públicos recorrentemente sabe que a probabilidade de se cruzar com as mesmas pessoas, às mesmas horas, nas mesmas paragens, estações ou carruagens, é muito elevada.

Quem anda de transportes públicos recorrentemente também sabe que há dias em que mal nos conseguimos mexer, mal conseguimos tirar a mão do bolso e muito menos segurar um livro que nos faz viajar até outros destinos.

O ritmo dos dias, para quem anda ou não de transportes, faz com que as nossas viagens sejam sempre apressadas, com que raramente aproveitemos o tempo e o espaço que esses minutos nos proporcionam. Andamos apressados, fazemos sprints de um lado para o outro e rebentamos “a bolha” constantemente.

É nessa bolha que eu, que ando de transportes públicos recorrentemente, me cruzo com uma mesma pessoa, mais ou menos à mesma hora, sempre na mesma estação de metro, sempre no mesmo lugar.

É uma rapariga jovem, cabelo comprido, encaracolado, normalmente sentada “à chinesa”, livro nas mãos, sorriso na cara e sem tempo. Não a vejo com pressa de chegar a nenhum lado. Não a vejo com ar cansado de quem vai começar mais um dia. Não a vejo preocupada com absolutamente nada. Está ali a aproveitar a sua bolha e a fazer-me pensar que nunca devo deixar que rebentem a minha!

Um dia destes pensei em parar para lhe agradecer. Mas isso ia fazer com que fosse eu a quebrar aquele momento, e não o fiz. Por isso, aqui fica o meu agradecimento! Quem sabe ela não tem por hábito ler blogs e um dia este post lhe chega “às mãos”.

 

Curiosamente screvi este post ao som de uma música que tem nome de livro. Haverá coincidências?

 

 

"A volta do carteiro"

Queixoperra, 6120 Mação. Durante largos anos as ruas da minha aldeia não tiveram toponímia atribuída. Havia quem estranhasse, quem dizia não ser possível, quem se espantasse muito por não haver extravios. Não havia. O “Tonho Puto” sabia de cor os nomes de todos os moradores, famílias completas de avós, pais, filhos, primos. Muitos Cruz, Silva, Lourinho, Casola, Vicente, Pereira, cada carta entregue no seu lugar.

Mala de cabedal a tiracolo, farda ajustada à figura, motoreta para fazer o giro, pressa quanto baste para distribuir tanto correio, é favor não atrasar o carteiro. Responsável durante muitos anos pela volta da minha aldeia, o “Tonho Puto” não conhecia apenas cada manha da estrada, cada beco sem saída, cada curva apertada, dominava sobretudo a mais importante geografia local.

Todas as aldeias que conheço têm uma geografia muito particular, indiferente ao que diz a toponímia, a dos afetos. É uma geografia impossível de replicar, única e especial, partilhada entre os moradores e, muitas vezes, também com o carteiro. Mais do que o mapa do terreno, o carteiro conhece o jeito de cada um e nenhuma carta é devolvida, mesmo que seja enviada sem destinatário.

“Sr. Carteiro, por favor entregue esta carta à rapariga mais simpática da Queixoperra”. Foi isto que o Luís escreveu na missiva enviada a partir do Forte de Nossa Senhora da Graça, Elvas, em Novembro de 1972. Seguia assim e fosse o que Deus quisesse. Quis Deus e o carteiro que o envelope tivesse sido entregue na casa de Clementina Vitória, mãe de duas raparigas solteiras e efetivamente simpáticas.

As ruas de então são as dos nossos dias: a do Porto d’Horta, a do Casola, a das Lajes, a da Fonte da Bica, a do Lombão. São os nomes ancestrais que lhes deram os antepassados locais e que se optou por respeitar numa célebre reunião que juntou o povo no salão da coletividade da aldeia. Hoje todas as ruas têm nome e todas as casas têm número de porta mas nem sempre as cartas chegam ao destino.

Há poucos meses, enquanto a família aguardava o SMS que nos haveria de indicar o número da porta dos primos, as minhas filhas fizeram o relato das melhores coisas daquela viagem. Referiram os vestidos tradicionais, as ‘patatas bravas’, os mergulhos À NOITE na piscina do hotel, os GELADOS, o palácio do rei e da rainha, tudo enquanto eu me esforçava para adaptar o ditado à economia de espaço do postal. Estávamos nos ‘Correos’ e com exceção do número da porta, a morada estava completa.

Aguardámos mais um pouco. Voltámos a entrar na catedral da cidade andaluz. Saímos e demos uma nova volta ao quarteirão. Era o último dia da viagem e daí a pouco regressaríamos a Portugal. E se for assim? O SMS não chegou mas o postal seguiu viagem. Seja o que Deus quiser.

Quem abriu o envelope do Luís foi a Ausenda, uma das filhas da Clementina. Quis Deus ou o destino, certamente o carteiro, que uma carta os juntasse. Casaram em 1975, muita correspondência depois. Já o postal dos meus sobrinhos nunca chegou ao destino, perdeu-se algures entre Espanha e Portugal, num qualquer ponto da distribuição. Talvez eu esteja enganada mas tenho cá para mim que os carteiros de hoje não são como o saudoso “Tonho Puto”, o carteiro que elegeu a Ausenda como a rapariga mais simpática da minha aldeia.

 

Este texto foi escrito por Berta Silva Lopes e publicado em mediotejo.net onde podem descobrir outras histórias giras. 

 

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