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Edição Limitada

“Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Clarice Lispector

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“Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Clarice Lispector

"A volta do carteiro"

Queixoperra, 6120 Mação. Durante largos anos as ruas da minha aldeia não tiveram toponímia atribuída. Havia quem estranhasse, quem dizia não ser possível, quem se espantasse muito por não haver extravios. Não havia. O “Tonho Puto” sabia de cor os nomes de todos os moradores, famílias completas de avós, pais, filhos, primos. Muitos Cruz, Silva, Lourinho, Casola, Vicente, Pereira, cada carta entregue no seu lugar.

Mala de cabedal a tiracolo, farda ajustada à figura, motoreta para fazer o giro, pressa quanto baste para distribuir tanto correio, é favor não atrasar o carteiro. Responsável durante muitos anos pela volta da minha aldeia, o “Tonho Puto” não conhecia apenas cada manha da estrada, cada beco sem saída, cada curva apertada, dominava sobretudo a mais importante geografia local.

Todas as aldeias que conheço têm uma geografia muito particular, indiferente ao que diz a toponímia, a dos afetos. É uma geografia impossível de replicar, única e especial, partilhada entre os moradores e, muitas vezes, também com o carteiro. Mais do que o mapa do terreno, o carteiro conhece o jeito de cada um e nenhuma carta é devolvida, mesmo que seja enviada sem destinatário.

“Sr. Carteiro, por favor entregue esta carta à rapariga mais simpática da Queixoperra”. Foi isto que o Luís escreveu na missiva enviada a partir do Forte de Nossa Senhora da Graça, Elvas, em Novembro de 1972. Seguia assim e fosse o que Deus quisesse. Quis Deus e o carteiro que o envelope tivesse sido entregue na casa de Clementina Vitória, mãe de duas raparigas solteiras e efetivamente simpáticas.

As ruas de então são as dos nossos dias: a do Porto d’Horta, a do Casola, a das Lajes, a da Fonte da Bica, a do Lombão. São os nomes ancestrais que lhes deram os antepassados locais e que se optou por respeitar numa célebre reunião que juntou o povo no salão da coletividade da aldeia. Hoje todas as ruas têm nome e todas as casas têm número de porta mas nem sempre as cartas chegam ao destino.

Há poucos meses, enquanto a família aguardava o SMS que nos haveria de indicar o número da porta dos primos, as minhas filhas fizeram o relato das melhores coisas daquela viagem. Referiram os vestidos tradicionais, as ‘patatas bravas’, os mergulhos À NOITE na piscina do hotel, os GELADOS, o palácio do rei e da rainha, tudo enquanto eu me esforçava para adaptar o ditado à economia de espaço do postal. Estávamos nos ‘Correos’ e com exceção do número da porta, a morada estava completa.

Aguardámos mais um pouco. Voltámos a entrar na catedral da cidade andaluz. Saímos e demos uma nova volta ao quarteirão. Era o último dia da viagem e daí a pouco regressaríamos a Portugal. E se for assim? O SMS não chegou mas o postal seguiu viagem. Seja o que Deus quiser.

Quem abriu o envelope do Luís foi a Ausenda, uma das filhas da Clementina. Quis Deus ou o destino, certamente o carteiro, que uma carta os juntasse. Casaram em 1975, muita correspondência depois. Já o postal dos meus sobrinhos nunca chegou ao destino, perdeu-se algures entre Espanha e Portugal, num qualquer ponto da distribuição. Talvez eu esteja enganada mas tenho cá para mim que os carteiros de hoje não são como o saudoso “Tonho Puto”, o carteiro que elegeu a Ausenda como a rapariga mais simpática da minha aldeia.

 

Este texto foi escrito por Berta Silva Lopes e publicado em mediotejo.net onde podem descobrir outras histórias giras. 

 

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