Uma pessoa que leia dois posts seguidos em que eu falo de corrida… pode não acreditar quando digo que não é o meu desporto favorito. Mas acreditem, não é! Contudo… é algo que me faz superar os meus limites e me “obriga” a desafiar-me, metro após metro. Também pode pensar que me farto de correr, o que também não corresponde à verdade. Nem sempre apetece correr e nunca consegui fazer um percurso completo em corrida. Nunca, como quem diz até hoje. Amanhã não sabemos.
Descobri, nas saídas que fazia para “correminhar”, que o último programa da Inês Menezes na Radar tinha os ritmos certos para me acompanhar e por isso, durante esses momentos de liberdade e esforço físico, ouvi-o repetidamente.
Hoje quando oiço essas músicas consigo visualizar alguns dos momentos em que as ouvi na altura. Nalguns casos passaram a representar partes do percurso, noutras passaram a representar sensações. Todas passaram a ter um papel importante.
Se há uns dias falava da música dos Muse, que fica para sempre associada à corrida de São Silvestre de 2019 (sim, porque quem já participou numa… pode participar em mais), hoje falo de uma dos Arcade Fire. Chama-se No Cars Go e era o mote para começar a correr.
Durante 5 minutos e 43 segundos eu passava por uma horta urbana, via papoilas, enchia-me de força e acreditava que era capaz de tudo, depois começava uma das partes da música que eu mais gosto e também começava o Tico a dizer ao Teco que não aguentava mais. Nessa altura, normalmente numa zona a subir, o Teco tinha que dizer ao Tico que era tudo da cabeça dele e que ele conseguia! Dizia-lhe para ouvir a música e continuar! Para se deixar “embalar” pelo ritmo e lembrar-se como se sentia quando chegasse ao final daquela reta enorme, numa zona onde os carros não podiam passar, e os dois, o Tico e o Teco, se iam sentir os maiores porque tinham conseguido.
Falava no outro dia com um amigo sobre a capacidade que as músicas têm de nos levar a memórias muito antigas, a momentos muito felizes, assim como a momentos muito tristes. A música faz-nos companhia. É como aquele amigo que nos ajuda a superar momentos mais difíceis ou sai connosco para celebrar grandes vitórias (como conseguir correr 5 minutos e 43 segundos de seguida).
Esta teve essa dupla capacidade. Especialmente nos últimos 2 minutos!
Em Dezembro corri numa corrida de São Silvestre. Era de noite, estava frio, eu ainda meia lesionada. Mas lá fui. Fui praticamente sempre em último lugar. Ao ponto de ficar “amiga” do Polícia que tinha como missão ser o “carro vassoura”, no caso, a mota.
Enquanto ele pacientemente me acompanhava foram várias as pessoas que desistiram. Eu, pedia-lhe que fosse avançando e esperasse por mim num determinado ponto. Não me ia acontecer nada, dizia-lhe eu. Ia alternando entre caminhar e correr. Quando ele percebeu que eu efetivamente não ia desistir, começou a aceder a esses meus pedidos. Ele avançava até um ponto, eu ia lá ter.
Há muitas teorias sobre o impacto da música nos nossos comportamentos. Música muito “mexida” num espaço comercial faz com que nos despachemos, música tranquila num consultório médico baixa os nossos níveis de apreensão, tranquiliza-nos.
Uso muitas vezes as músicas como medida, sobretudo para correr. Aliás, a par do “vou até ali a correr” há praticamente sempre o “vou correr até ao final da próxima música”. Ora… por vezes os acordes trocam-nos as voltas e a nossa força de vontade e resiliência são postos à prova.
Na caminhada matinal de hoje, a determinada altura, aconteceu aquilo que eu digo que raramente me acontece: tive vontade de correr! Mas na altura não podia. Entretanto, mais tarde, ouvi uma música que me levou diretamente para a dita corrida de São Silvestre e essa vontade regressou. E na altura, também não pude correr…
Fez-me lembrar os 3:46 em que a ouvi, em sofrimento. Custou, mas não desisti!
Há dias que são um bocadinho como esta música foi para mim em Dezembro: puxada, exigente, desafiante. Testam-nos a força de vontade e a resiliência. Mas, ao mesmo tempo, também nos mostram que conseguimos! Conseguimos, muitas vezes, mais do que aquilo que pensamos conseguir. Muitas vezes o segredo é esse, continuar, como dizia o Churchill. E, de preferência, na companhia dos “Polícias” que vão ali ao lado, nos motivam e nos ajudam a nunca desistir!
Dei comigo a pensar nisto no outro dia: sou uma pessoa privilegiada!
Este “novo normal” fez com que alguns dos meus hábitos tivessem que ser alterados. Os meus, e os de todos, mas cada um falará por si.
Uma das coisas que mudou na minha vida foi a forma como me desloco na cidade. Quando deixei de circular apenas na zona onde vivo e passei a ter de ir para uma zona mais central da cidade, decidi ir a pé. Não são as caminhadas que fazia ao final do dia, nem dá para correr caso apeteça. O que é raro… apetecer-me correr, mas às vezes acontece.
Comecei a ir trabalhar a pé. Faço 5 kms para um lado e 5kms para o outro. Não acontece todos os dias, mas acontece muito frequentemente. Os caminhos que faço são praticamente sempre os mesmos, com uma ou outra alteração, mas nada de muito diferente.
Um dos motivos pelos quais sou uma pessoa privilegiada é o poder passar por um dos espaços mais bonitos da cidade: o jardim da Gulbenkian. Todos os dias passo por ele, escolho um dos percursos que me leva ao outro lado, vejo os patos e patinhos, as árvores, os riachos, as flores, respiro fundo e agradeço! Até já sei onde o gato residente dorme a sua sesta ao final do dia. Só falta sermos apresentados.
De manhã a natureza está a cuidar de si própria. Ao final do dia, estão famílias, amigos ou pessoas sozinhas a aproveitar o verde e a respirar fundo. Na semana passada, pude assistir a um pequeno ensaio para um concerto que ali ia acontecer. Tudo com as devidas distâncias. Hoje vi os patos a apanhar sol. Também eles com as devidas distâncias. Nada disto eu teria visto se continuasse a andar de transportes públicos.
Chego ao final da semana muito cansada e quando acordo… as pernas também acordam cansadas. Mas depois, penso na possibilidade que tenho de me deslocar na cidade a pé, de poder ver tudo o que vejo e experienciar tudo o que experiencio. E isso é um privilégio.
No fim de semana ouvi o episódio do The Gratitude Diaries – Feel better about your body onde a autora partilha uma história breve e onde fala de um pequeno mantra muito curioso sobre a gratidão e os dias em que a coisas não correm como queremos: “tenho dois braços, duas pernas, olhos que conseguem ver, tudo razões para estar grato”. Eu acordo cansada, mas tenho pernas para fazer o caminho e olhos para ver aquilo com que me cruzo. Tudo razões para estar grata!
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