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Edição Limitada

“Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Clarice Lispector

Edição Limitada

“Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Clarice Lispector

Continuar!

Em Dezembro corri numa corrida de São Silvestre. Era de noite, estava frio, eu ainda meia lesionada. Mas lá fui. Fui praticamente sempre em último lugar. Ao ponto de ficar “amiga” do Polícia que tinha como missão ser o “carro vassoura”, no caso, a mota.

Enquanto ele pacientemente me acompanhava foram várias as pessoas que desistiram. Eu, pedia-lhe que fosse avançando e esperasse por mim num determinado ponto. Não me ia acontecer nada, dizia-lhe eu. Ia alternando entre caminhar e correr. Quando ele percebeu que eu efetivamente não ia desistir, começou a aceder a esses meus pedidos. Ele avançava até um ponto, eu ia lá ter.

Há muitas teorias sobre o impacto da música nos nossos comportamentos. Música muito “mexida” num espaço comercial faz com que nos despachemos, música tranquila num consultório médico baixa os nossos níveis de apreensão, tranquiliza-nos.

Uso muitas vezes as músicas como medida, sobretudo para correr. Aliás, a par do “vou até ali a correr” há praticamente sempre o “vou correr até ao final da próxima música”. Ora… por vezes os acordes trocam-nos as voltas e a nossa força de vontade e resiliência são postos à prova.

Na caminhada matinal de hoje, a determinada altura, aconteceu aquilo que eu digo que raramente me acontece: tive vontade de correr! Mas na altura não podia. Entretanto, mais tarde, ouvi uma música que me levou diretamente para a dita corrida de São Silvestre e essa vontade regressou. E na altura, também não pude correr…  

Fez-me lembrar os 3:46 em que a ouvi, em sofrimento. Custou, mas não desisti!

Há dias que são um bocadinho como esta música foi para mim em Dezembro: puxada, exigente, desafiante. Testam-nos a força de vontade e a resiliência. Mas, ao mesmo tempo, também nos mostram que conseguimos! Conseguimos, muitas vezes, mais do que aquilo que pensamos conseguir. Muitas vezes o segredo é esse, continuar, como dizia o Churchill. E, de preferência, na companhia dos “Polícias” que vão ali ao lado, nos motivam e nos ajudam a nunca desistir!

 

Esta é a música de que estava a falar: 

 

 

É um privilégio

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Dei comigo a pensar nisto no outro dia: sou uma pessoa privilegiada!

Este “novo normal” fez com que alguns dos meus hábitos tivessem que ser alterados. Os meus, e os de todos, mas cada um falará por si.

Uma das coisas que mudou na minha vida foi a forma como me desloco na cidade. Quando deixei de circular apenas na zona onde vivo e passei a ter de ir para uma zona mais central da cidade, decidi ir a pé. Não são as caminhadas que fazia ao final do dia, nem dá para correr caso apeteça. O que é raro… apetecer-me correr, mas às vezes acontece.

Comecei a ir trabalhar a pé. Faço 5 kms para um lado e 5kms para o outro. Não acontece todos os dias, mas acontece muito frequentemente. Os caminhos que faço são praticamente sempre os mesmos, com uma ou outra alteração, mas nada de muito diferente.

Um dos motivos pelos quais sou uma pessoa privilegiada é o poder passar por um dos espaços mais bonitos da cidade: o jardim da Gulbenkian. Todos os dias passo por ele, escolho um dos percursos que me leva ao outro lado, vejo os patos e patinhos, as árvores, os riachos, as flores, respiro fundo e agradeço! Até já sei onde o gato residente dorme a sua sesta ao final do dia. Só falta sermos apresentados.

De manhã a natureza está a cuidar de si própria. Ao final do dia, estão famílias, amigos ou pessoas sozinhas a aproveitar o verde e a respirar fundo. Na semana passada, pude assistir a um pequeno ensaio para um concerto que ali ia acontecer. Tudo com as devidas distâncias. Hoje vi os patos a apanhar sol. Também eles com as devidas distâncias. Nada disto eu teria visto se continuasse a andar de transportes públicos.

Chego ao final da semana muito cansada e quando acordo… as pernas também acordam cansadas. Mas depois, penso na possibilidade que tenho de me deslocar na cidade a pé, de poder ver tudo o que vejo e experienciar tudo o que experiencio. E isso é um privilégio.

No fim de semana ouvi o episódio do The Gratitude Diaries – Feel better about your body onde a autora partilha uma história breve e onde fala de um pequeno mantra muito curioso sobre a gratidão e os dias em que a coisas não correm como queremos: “tenho dois braços, duas pernas, olhos que conseguem ver, tudo razões para estar grato”. Eu acordo cansada, mas tenho pernas para fazer o caminho e olhos para ver aquilo com que me cruzo. Tudo razões para estar grata!

Mudanças ou os Ventos de Santa Ana

No filme “The Holiday” há uma cena muito simples mas com imenso significado. Para mim, pelo menos. Fala dos ventos de Santa Ana. Para quem não viu o filme, trata de duas mulheres que decidiram dar uma volta nas suas vidas, numa espécie de fuga prá frente, e por isso, num impulso, inscrevem-se num site de troca de casas. Uma em Inglaterra, outra nos Estados Unidos. Na Califórnia mais precisamente.

Voltando à cena: uma delas está em frente da sua “nova” casa com um dos personagens e sopram ventos fortes. E ele diz-lhe: “The wind...It's what makes it so warm at this time of the year. Legend has it, when Santa Anas blow, all bets are off, anything can happen.”

Nas duas últimas semanas estes ventos devem ter andado a soprar por estes lados. Em imensas pequenas coisas senti que era altura de mudanças. E quando são vários os sinais… uma pessoa deve fazer por segui-los, não é?

Tudo começou com uma saudade de tempos bons. Tempos em que recebíamos amigos em casa para jantares animados, com partilha de alimentos e experiências. Depois foi a oportunidade de me desfazer de dois telemóveis antigos, daqueles que estão ali na gaveta porque não sabemos o que lhes fazer. Com a mudança de telefone… veio também toda uma nova oportunidade: novas conversas. Sem histórico. A minha resistência à mudança manifesta-se neste tipo de coisas… mudar de telemóvel implica ganhar umas coisas e perder outras. Desta vez decidi que ia ver esta “chatice” como uma oportunidade para o novo. Novas conversas, filtrar o que importa e alimentar o que nos faz bem.

Também senti o ímpeto de fazer algumas alterações em casa. Deixar de adiar esta ou aquela tarefa. Dar prioridade aquilo que embora considere prioritário, é muitas vezes adiado. E senti vontade de sair para caminhar, até nos dias em que não precisava de o fazer para me deslocar do ponto A ao ponto B. E com estas “vontades” consegui superar-me mais uma vez. E essa sensação é sempre boa!

As mudanças trazem normalmente algumas dores… nem que sejam musculares! Implicam desfazer nós, desfazermo-nos de coisas/situações com as quais já estamos confortáveis, mesmo que saibamos que já não fazem parte do que somos ou do que queremos ser. Mas é mais fácil, ou parece muito mais fácil, manter do que mudar.

Mas ao mesmo tempo, as mudanças também trazem leveza, ar fresco, oportunidades de melhoria e renovação. De fazer um upgrade à nossa própria versão. Mesmo que sejam ligeiras atualizações… são sempre atualizações!

E por isso não se esqueçam, se sentirem um ventinho passar, aquela brisa quentinha na cara, pensem nos Ventos de Santa Ana e deixem-se voar. Está tudo em jogo, e tudo pode acontecer!

 

P.S.: No Domingo à noite, num fim de semana em que me empenhei nesta coisa da mudança e por isso estava feliz mas exausta… decidi ultrapassar o cansaço e fui “correminhar” como diz uma das minhas amigas. Ia apenas caminhar, mas apeteceu-me correr um bocadinho e acelerei o passo. Fui a ouvir o “Era o que faltava” com o Rodrigo Leão, que recomendo. Quando estava quase a chegar a casa ouvi uma das músicas dele que mais gosto, que me deixa bem disposta e que até já foi o meu serviço despertar (se calhar vai voltar a ser). Espero que anime também o vosso dia!

 

 

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