A D. ROSA
Quase todos os dias a D. Rosa (chamemos-lhe D. Rosa) vem de manhã no mesmo autocarro que eu. Quase todos os dias oiço a D. Rosa queixar-se das suas maleitas, das dores que sente no joelho e do preço dos medicamentos. Assim como a vejo sair do autocarro com muita dificuldade, quase todos os dias para ir trabalhar.
É evidente que a D. Rosa tem o joelho inchado e que está em sofrimento. O que me faz escrever aqui sobre a D.Rosa (e não sobre a outra senhora que tem à volta de 50 anos e passa a viagem a dizer mal dos colegas de trabalho e da sua vida, por exemplo) é o facto de ela todos os dias que a vejo, e sempre em sofrimento, ter uma voz doce, um ar meigo e um sorriso.
A D. Rosa hoje vinha sentada à minha frente. Quase toda a gente lhe pergunta se ela está melhor. Hoje uma senhora que também vinha lá perto disse saber qual o sofrimento pelo qual a D. Rosa estava a passar. Ela a rir-se diz-lhe "A senhora também tem destas dores? Então eu não quero falar consigo, eu quero falar com quem não tem dores!". E riram-se as duas!
Quando chegámos à paragem desejei-lhe bom dia e fiquei a pensar que tinha que vir aqui falar nela. A cada dia que passa se vê que ela não está melhor, mas ela mantem o seu sorriso, nem que seja na voz.
Espero que hoje, depois do seu dia de trabalho, possa descansar um pouco e que no fim de semana as dores diminuam.